quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Os filhos dos outros

Este é um tema que me dá floqueceras e comichões nervosas, e sabendo disto vou tentar não me estender demasiado. Desde já peço desculpa, mas tentarei ser o mais breve possível.


Nos últimos dias muitos pais revelaram-se indignados com um artigo publicado no jornal Expresso, que abordava o tema "crianças hiperactivas vs. crianças mal educadas". 
A interpretação que eu tirei do artigo (e digam-me se estou errada e porquê), é de que o jornalista aborda o facto de os pais terem cada vez mais atitudes passivas perante o mau comportamento dos filhos - preferindo dizer: "ai coitadinho tem um problema, sabe, é hiperactivo" - em vez se assumirem que nem sempre lhes apetece tirar o cú do sofá ou os olhos do iPad, para lhe dar acompanhamento e amenizar as frustrações da criança. A par disso, não se importam de administrar medicamentos ao filho, até porque lhes dá mais jeito e menos trabalho. 
Mas para muitos pais, o mesmo artigo, não teve a mesma interpretação. Houve pais que não gostaram e saíram logo a defender-se dizendo que o senhor jornalista só diz isso porque não tem filhos (que ao que parece, até tem), que não podem trancar os miúdos em casa nem amordaça-los, e que se as crianças correm, brincam e gritam é porque são saudáveis e assim é que se quer.

Eu concordo totalmente com o artigo, e fico feliz que hajam pais que consigam pôr de lado essa necessidade cega de defender os filhos, abordando um tema que na minha opinião é preocupante.
Mas depois vêm-me dizer também a mim: "Só dizes isso porque não tens filhos. Porque se tivesses sabias o que era ter que levar com as birras todos os dias, sem descanso"
Pois é, eu não tenho filhos e não sei como é aturar essas birras todo o santo dia. Mas é isso mesmo, eu não tenho filhos porque não quero assumir essa responsabilidade de ter que os educar/aturar 24 horas por dia. Boa? E é por estas mesmas razões também, que eu digo que as pessoas não param para pensar se os querem ter. Têm-nos porque... "ora... porque é assim a vida, e toda a gente os tem, mas custa muito e eu nem sempre tenho paciência". Enfim, mas este é um outro assunto que também dava pano para mangas e agora não vem ao caso.

Considero este assunto preocupante, e a forma como é tratado por muitos pais, revolta-me. 
Por exemplo, o meu namorado trabalha numa empresa que vende serviços de televisão, internet, etc., e contou-me que estes dias recebeu a reclamação de uma cliente que tinha ficado sem emissão de televisão (por culpa dela) e não aceitava ficar sem a emissão até ao dia seguinte. 
Pelo que o meu namorado me conta, este é um comportamento muito recorrente e as pessoas não aceitam ficar sem os serviços (mesmo que seja por culpa delas) não é porque estão a pagar, é mesmo porque dizem que não conseguem viver sem esses mesmos serviços.
Continuando, essa cliente reclamava que não admitia ficar sem televisão porque tinha duas crianças em casa, e perguntava: "você sabe o que é ter duas crianças em casa e não ter televisão? O que é que eu paço agora?". 
Oi? Então para ter duas crianças em casa, tem que haver televisão? Senão o quê, morrem? Não têm mais nada com que se entreter, ou a mãe não quer estar com elas e educá-las e por isso deixa que a TV tome conta delas? 
Onde nós chegámos!

Há uns dias lia também num blogue, um desabafo de uma mãe indignadíssima com o serviço de TV por cabo, porque este admitia ter canais como AXN que passavam filmes violentos durante a tarde. E que os filhos dela de 6 e 7 anos, QUASE viram uma cena de extrema violência e - palavras dela - "eu nem quero imaginar se os meus filhos tivessem visto aquelas imagens!".
A sério? É o serviço de TV por cabo que tem culpa? As crianças são de porcelana, ou querem que elas vivam numa redoma? Querem controlá-las, ou melhor, que os outros controlem tudo o que vêem?
Hello!! a violência existe em todo o lado e faz parte da vida, quer queiramos ou não. Não estou a querer dizer que as crianças devem ver filmes violentos, muito pelo contrário, mas usar expressões como "ainda bem que cheguei a tempo, porque eu nem quero imaginar se elas vissem..."? Não cabe aos pais, sempre que estas coisas acontecem, e vão acontecer quer queiram ou não, explicar aos filhos o que é que determinadas imagens que podem ou não ser perturbadoras, querem dizer?


Enfim, andamos todos muito indignados, mas com as coisas erradas. Quer-se mais humildade e consciência.
Espero que quando for mãe, se o for, não desça em mim esta estupidez que cega os pais e faz dos filhos os lideres lá em casa. 
Lá em casa, no restaurante, no café, na esplanada, no consultório, na praia, na casa do vizinho, na escola...

6 comentários:

  1. Eu continuo a querer proteger os meus filhos de festivais sanguinários para maiores de 18 na sessão da tarde!

    Fiquei indignada... pois claro que fiquei indignada! E ao que parece não devo ter sido a única pois o AXN Black modificou bastante a grelha diária.

    AINDA BEM que fui eu quem entrou na sala naquele momento. Desconhecia por completo que havia canais com aquele tipo de conteúdo em pleno dia, e tive a possibilidade de bloquear o canal em questão.

    Continuo da mesma opinião que aquele conteúdo de horror/sexo/violência era gráfico demais até para jovens adolescentes e até muitos adultos, quanto mais os miúdos com 6 e 7 anos na altura!

    E sim. Quero controlar conteúdos com classificação para maiores de 18. Quando diz que deveria explicar aos miúdos o que aquelas imagens significavam, espera que eu explicasse o que não tem explicação? Eu não estava a falar de um noticiário ou mesmo de um filme de guerra, era um filme de terror bem temperado. E acho que qualquer educador partilha da mesma opinião que eu.

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    1. Olá Carla,
      Gostava de me lembrar e ter a certeza onde foi que li o texto, que foi há imenso tempo. No entanto se for dentro dos blogues que sigo e pelo nome, deduzo quem seja.

      Acho óptimo que queira controlar conteúdos pouco educativos, revela na minha opinião acompanhamento. Só me refiro ao facto de ninguém poder controlar tudo a toda a hora, e fazer disso um problema maior do que é.

      Também acredito que o filme em questão tivesse imagens chocantes até para um adulto, eu mesma não consigo ver muitos desses filmes. No entanto, acredito também que é possível falar e explicar qualquer que fosse a imagem, se assim fosse necessário.

      Se o AXN mudou a grelha de programação melhor. Se foi por questões destas ou não, já não sei.
      Se todos os educadores concordam e agem com esse alarme em situações pontuais também não sei, mas espero que não.
      Os meus pais nunca agiram assim e não assisti a nenhum filme que me tivesse deixado traumas para a vida. Até porque sempre fui sensível a esses conteúdos, e se achasse que não era agradável, mudava e pronto.

      Acho mais grave que passem nos canais nacionais, onde a programação é para todas as idades, repetidamente e a qualquer hora uma "professora sereia" de mamas ao leu a publicitar o regresso às aulas! E ninguém se indigna com isso.


      Não entenda isto como um ataque, até porque se for quem penso é autora de um blogue que sigo e gosto bastante. Apesar também de já prever e saber que os pais ficam sempre muito inquietos com este assunto.

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  2. Vannny, o teu namorado tem muita paciência!

    Relativamente a hiperactividade... na minha altura de criança isso não existia, mas tenho a certeza que o era, mas mal educado nunca fui. Vi coisas as escondidas dos meus pais e não foi por isso que fui mais ou menos do que sou hoje. Filmes de terror, sexo ou filmes de guerra, são filmes! Eles em casa não vêem, depois vêem em outro lugar, e a mãe estará onde? Não ter um serviço de tv, radio ou internet para interter crianças é absurdo. Os pais que os levem a passear. Se há programação dessa a determinadas horas os pais que eduquem os filhos e expliquem o que é aquilo, se não explicam lá está têm preguiça! Mas quem é que sabe se tenho filhos ou não! Filho já o fui e não me trataram assim! Birras! Birras era só o meu pai olhar para mim que as birras fugiam a sete pés ;)

    "Carolina não comes a sopa toda, tu é que sabes, depois não vais à rua"
    "já tá que sopa tão boa"
    ha ha ha ha ha

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    1. Acredito, só que hiperactividade é desculpa para muita falta de educação hoje me dia.

      Pois é, a violência está em todo o lado, não dá para controlar sempre. Faz-se o melhor que se pode, o resto faz parte da evolução e é natural. Até porque se sabe que quanto mais se esconde ou se revela pânico destas coisas, mais os miúdos têm curiosidade em querer saber.

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  3. Leste-me muitos dos pensamentos. E isto é, de facto, um assunto que dá pano para mangas. Ainda bem que, por enquanto que o assunto tá fresquinho e sensível, não entraste em pormenores da situação de se ter filhos porque é natural. Comiam-te viva. Mas eu concordo plenamente contigo! Devido a "umas quantas pessoas" assim mais chegadas terem engravidado todas ao mesmo tempo, vi-me obrigada a olhar com outros olhos para este fenómeno, chamar-lhe-ia eu. A banalidade com que se trata uma gravidez, a falta de planeamento e responsabilidade, a vulgarização da gravidez perante o facto de se ser mulher. Parece-me que existem muitas mulheres a engravidar só porque viram a melhor amiga grávida também, só porque viram a sua rival engravidar primeiro. Não sei, dá-me muitas vezes essa sensação! Confesso que tenho planos para ser mãe, para um dia o poder ser, obviamente, e confesso que sinto um fresquinho na barriga quando vejo uma mulher grávida e eu, quase nos 30, não tenho ainda nada em vista desse género. Mas não vou a correr engravidar! Porque não tenho intenções de pôr os meus filhos a serem educados pela TV só porque não me apeteceu ser responsável. E custa-me ver também as crianças a pagarem esse preço. Claro que nem todas as mães o são nestas circunstâncias, mas conheço pessoalmente alguns casos em que diria que foi mesmo isso que aconteceu! Entretanto, passando ao tema inicial do post, lembro-me de quando estive a trabalhar com a Karen no Instituto Hidrográfico da Marinha, a tomar conta dos filhos do pessoal que lá trabalha, havia uma mãe, quarentona já, e o rapaz tinha uns 10 anos talvez (aquela idade em que começam a transitar da infância para a adolescência, um género de lusco-fusco entre estes dois, já sabem algumas manhas mas ainda são criaturas puras), e a mãe dele insistia que o rapaz tomasse calmantes porque era hiper-activo. Notavam-se óbvias diferenças no comportamento do pequeno, quando não tomava agia como uma criança da idade dele, normal, quando os tomava... coitadito, encostava-se a nós, meio sonolento/anestesiado, conversava sobre o céu estar tão azulinho e as nuvens tão brancas... parecia um filósofo prestes a entrar num sono profundo, enquanto as outras crianças jogavam à bola, desenhavam, saltavam à corda... e mais não digo porque... sentia alguma revolta por saber que aquilo acontecia pelo simples facto da mãe não ter paciência para ele.
    Enfim... isto vai longo, mas queria ainda abordar outra questão que mencionaste: "não sabes porque não tens filhos". Concordo contigo, somos nós que tomamos essa decisão. Mas eu assumo outra posição pelo simples facto da minha mãe e eu mesmo já termos cuidado de crianças durante vários anos. Sabemos como é complicado educá-los e então não aceitávamos crianças com mais de 1 ano de idade. Todos os casos eram casos em que a criança passava o dia inteiro cá em casa, praticamente só íam para casa para jantar e dormir, e por isso tínhamos de dizer aos pais que os aceitavamos entre os 3 meses e a idade até que fosse necessário tomar conta deles. Nós seríamos a convivência deles, nós teríamos de os conhecer e inculcar hábitos. Nós fomos encarregados de educação deles e portanto, apesar de não ser mãe, sei o que é aturar as birras deles. Mas também posso garantir que nenhuma das crianças que por aqui passou fazia birras desse género, especialmente em locais públicos, porque tinham a devida atenção durante, pelo menos 10 horas por dia, tinham quem brincasse com eles, quem lhes desse horários a cumprir, quem lhes ensinasse "as regras do bom-viver", quem os ajudasse quando precisavam. As crianças hoje são "hiperactivas" porque é a maneira delas tentarem chamar a atenção. Infelizmente os pais, só mesmo para rematar, estão-se a cagar... Sorry, longo comment :(

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    1. É um assunto que deixa "acesos" muitos pais. E até deduzo porquê!!
      Que triste que é essa situação desse menino :/

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